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31 de agosto de 2015

Psicopedagogia e Dificuldades de Aprendizagem

 Eliane Calheiros Cansanção

A psicopedagogia surge para atender as crianças e adolescentes que por diferentes fatores estão excluídos ou se excluem eles mesmos do sistema educacional.  As dificuldades de aprendizagem aparecem especificamente na área da linguagem e/ou cálculo, ou na relação com a aprendizagem, o que contribui para que o aprendiz não consiga acompanhar o processo educacional.  Num primeiro momento, a intervenção psicopedagógica clínica esteve voltada para a busca e o desenvolvimento de metodologias que melhor atendessem aos portadores de dificuldades, ou seja, aos excluídos, tendo como principal objetivo fazer a reeducação ou remediação e, desta forma, promover o desaparecimento do sintoma.
A psicopedagogia hoje é a área que estuda e lida com os processos de aprendizagem e suas dificuldades.  Vem construindo sua teoria através de práxis, enriquecida  pela contribuição de diversas teorias, como a psicanálise, a psicologia genética, a Lingüística, a neurologia, entre outras.  Seu objeto de estudo é o processo de aprendizagem humana, o “sujeito aprendendo” como cita Alicia Fernández.
o sintoma do não-aprender é entendido como um sinal, produto, emergência de uma desarticulação dos diferentes aspectos da aprendizagem, a saber:  o afetivo, o cognitivo e o social.
O campo de atuação da psicopedagogia  é clínico e preventivo.
O trabalho clínico se dá na relação entre um sujeito com sua história pessoal e sua modalidade de aprendizagem, buscando compreender a mensagem do outro sujeito implica no não aprender.  A clínica está mais voltada para a terapêutica e o atendimento é em consultório.
Alicia Fernández coloca que independente do espaço de trabalho o psicopedagogo deve ter um olhar e uma escuta clínica tanto no consultório como na instituição, mesmo que na instituição não se faça tratamento psicopedagógico.
O trabalho preventivo é de orientação no processo de ensino-aprendizagem, visando favorecer a apropriação do conhecimento do ser humano ao longo de sua evolução.  Ocorre em instituições de saúde mental e de educação como:  hospitais, escolas, empresas.
O trabalho do psicopedagogo na instituição escolar é de prevenção e se dirige também a detectar os problemas de aprendizagem, colaborar com os planos educacionais através de diagnóstico e propostas metodológicas adequadas, tentando desta forma evitar os fracassos educacionais e a melhorar os resultados de aprendizagem sistemática e assistemática.
Para Alicia Fernández, o papel do psicopedagogo na escola é de escuta da relação professor-aluno.  É necessário aqui citar a diferença entre dificuldade de aprendizagem e fracasso escolar, este ocorre na instituição escolar, predominam fatores etiológicos referidas as causas externas a criança e sua família.  As dificuldades de aprendizagem encontram-se no sujeito e na dinâmica familiar.
Em geral, as dificuldades de aprendizagem instalam-se antes do ingresso da criança na escola.  E ao ingressar na escola, cuja meta é a aprendizagem formal, elas surgem mais claramente através de diferentes sintomas.
Nesse caso faz-se necessária a intervenção clínica do psicopedagogo como especialista na área.  Nosso principal objetivo é a investigação da etiologia da dificuldade de aprendizagem, como também a compreensão deste processo de aprendizagem, considerando todas as variáveis que intervém no mesmo.  Será necessário a compreensão dos aspectos cognitivos, afetivos, orgânicos, pedagógicos, sociais e culturais, como também observar as modalidades de aprendizagem utilizada pelo sujeito e que em parte também justifica o sintoma.
O psicopedagogo tem como objetivos promover a reelaboração do processo de aprendizagem do sujeito que apresente dificuldade, desenvolver no sujeito o prazer de aprender, propiciar condições para que o sujeito desenvolva autonomia, como cita Noffs (1995).
O tratamento psicopedagogo deve ter como meta abrir um espaço onde o paciente possa falar e ser escutado, para que possa entender-se e organizar-se a partir da escuta do outro.  Um espaço não para revelar o que é importante, mas para que se fale o que precisa ser reconhecido como importante.
O terapeuta, como define Alicia Fernández (1987), é alguém que com sua escuta outorga valor e sentido à palavra de quem fala, permitindo que ele se organize (começar a entender-se) precisamente a partir de ser escutado.
Segundo Alicia Fernández (1992), o objetivo de toda intervenção psicopedagógica é abrir espaços subjetivos e objetivos, onde a autoria de pensamento seja possível.  É a partir deste que pode surgir o sujeito aprendente.
Sara Paín define aprendizagem “como processo que permite a transmissão de conhecimento de um outro que sabe (um outro de conhecimento) a um sujeito que vai chegar a ser sujeito, exatamente através da aprendizagem”.
Alicia Fernández cita que a aprendizagem é “um processo que ocorre no vínculo entre o ensinamento e o aprendente em uma interrelação”.  Inicia quando a pessoa nasce e seus primeiros ensinantes são os pais ou substitutos que intervém na história e lhes transmitem significações.  É aí onde se constrói a matriz organizadora de posteriores aprendizagens.
Ao chegar à escola, a criança já traz uma maneira própria de aprender, uma modalidade de aprendizagem, construída através de sua história, da história familiar e da significação dada pela família ao conhecimento.
Ao nascer, o bebê necessita de cuidados especiais, é totalmente dependente, precisa de um outro que cuide dele, alimente, “uma mãe nutridora”.  Necessidades que são expressas em movimentos e sons, os quais é a mãe que significa esses sons como palavras e pensamentos.  É nesse momento que a mãe investe a criança de humanidade, ao dar um significado às necessidades do bebê e incluí-lo assim em uma cultura.  A mãe, ao outorgar, dar este amor, estabelece um vínculo com esta criança que é fundamental ao seu desenvolvimento.
Sara Paín (1985) cita quatro fatores que interferem no processo de aprendizagem, que são:  os fatores orgânicos (sensoriais, neurológicos, endocrinológicos e as condições de alimentação), fatores específicos (psicomotores, leitura, escrita), fatores psicógenos (sintoma e inibição ao nível egóico) e fatores ambientais, que incidem mais sobre os problemas escolares que sobre os problemas de aprendizagem.  E trata o não-aprender como um sintoma que precisa ser desvendado, e cujas origens estão na constituição orgânica (que estabelece os limites) e na articulação crianças-pais.
Alicia Fernández (1987) se refere às dificuldades para aprender como fraturas no processo em que três dimensões estão sempre presentes:  a do corpo, a de inteligência e do desejo.  Onde predominam fatores etiológicos referidos a causas internas da criança e a sua família não há uma causa única, nem situações determinantes do problema, o que se tem que encontrar é a relação particular do sujeito com o conhecimento e o significado do aprender.
O diagnóstico psicopedagógico subsidiará a intervenção onde a mesma apóia-se na demanda do cliente e na escuta do terapeuta psicopedagogo.  Como exemplo:  num quadro disgráfico, para promover mudanças efetivas, cabe-nos compreender a natureza da disgrafia, como ela surge e se manifesta e como está contextualizada.  A partir deste momento, observa-se quais as formas de trabalho que terão boa receptividade com o cliente.
Os aspectos subjetivos e objetivos devem ser tratados de acordo com as demandas específicas do cliente.  É necessário considerar as escolhas das diferentes modalidades de jogo, o desenho, a produção de textos, leitura e a dramatização, oportunizem a simbolização de conflitos, o que em si já é terapêutico.  Como também realizar um trabalho de orientação com a família e a escola.
No final do século XX e início deste século, a aprendizagem tem sido um tema de muita discussão e pesquisa, devido ao momento de grandes transformações e mudanças no mundo, as quais interferem diretamente na formação do indivíduo e na sua aprendizagem.
Anny Córdie cita, então, que o fracasso escolar, a dificuldade de aprendizagem se tornaram sinônimos de fracasso de vida.  Ser bem-sucedido na escola é ter uma perspectiva de vida melhor, significa “ser alguém”, reafirmando, portanto, a importância do trabalho preventivo na escola.

6 de agosto de 2015

Dificuldades de Aprendizagem-Duas visões psicopedagógicas sobre o fracasso escolar.


Lúcia Gracia Ferreira
Mestranda em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB/Salvador. Especialista em Linguagem: pesquisa e ensino pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/Campus de Vitória da Conquista. Pedagoga pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/Campus de Itapetinga




RESUMO
Esse artigo faz uma análise reflexiva de duas visões psicopeddagógicas (social/pedagógica e psicanalítica) sobre o fracasso escolar. Nesta análise, procuramos compreender a aprendizagem e as dificuldades de aprendizagem, esta última é possível causadora do fracasso escolar. Também ressaltamos a importância da abordagem psicopeddagógica para a compreensão do insucesso do aluno na escola, pois esta abordagem se insere na área de estudos responsável pela compreensão das dificuldades de aprendizagem. A partir desse estudo entendemos que a psicopeddagogia dá respostas para alguns problemas que surgem no aluno, durante o processo de aprendizagem, mas que o maior problema está na educação. Portanto, acreditamos que quando houver melhoria na educação, também haverá melhoras no processo de aprender.
Unitermos: Psicologia educacional. Baixo rendimento escolar. Transtornos de aprendizagem.



INTRODUÇÃO
O presente artigo pretende oferecer alguns subsídios para a reflexão de duas visões diferentes e possíveis indicadoras do fracasso escolar. Com o intuito de compreender porque o aluno não aprende, o artigo vem também apresentar uma pesquisa analítica, calcada nos fundamentos de autoras como Maria Lúcia Weiss e Alicia Fernández, visto que estas autoras enfatizam em suas obras os entraves no aprender, como uma causa participante do Fracasso Escolar.
As dificuldades de aprendizagem acabam por provocar o fracasso escolar e, a psicopeddagogia, como abordagem que estuda o processo de aprendizagem, age para a superação dessas dificuldades sob um caráter institucional ou clínico.
O fracasso escolar nos remete a um "olhar atento". Um olhar que procure vislumbrar o sensível que está oculto. Veremos a visão psicanalítica a respeito do fracasso, definida por uma das autoras como sintoma, e diferenciá-la da segunda visão que dá ao fracasso outro conceito.
Falar em fracasso escolar não é muito atraente, mas é uma questão que precisa ser discutida e solucionada. Por isso, esse estudo tem o objetivo de analisar duas visões psicopeddagógicas sobre o fracasso escolar.

ENTENDENDO AS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
Faz-se necessário, para se reconhecer em uma criança a dificuldade de aprendizagem, primeiramente entender o que é aprendizagem e quais os fatores que nela interferem. Sisto1 define a aprendizagem como aquisição de uma habilidade ou informação baseada nas estruturas intelectuais existentes.
Pode-se dizer que a aprendizagem é um processo complexo que se realiza no interior do indivíduo e se manifesta em uma mudança de comportamento. Assim, é o desenvolvimento cognitivo que determina a aprendizagem (Paín2). A partir desse conceito, reconhecemos que no processo de aprendizagem:
"o sujeito que não aprende não realiza nenhuma das funções sociais da educação, acusando sem dúvida o fracasso da mesma, mas sucumbindo esse fracasso. A psicopeddagogia, como técnica da condução do processo psicológico da aprendizagem, traz com seu exercício o cumprimento de ambos os fins educativos."
Para a compreensão das Dificuldades de Aprendizagem (DA's), torna-se necessário conhecer a origem dessas, pois este é um fator importante para compreendermos a criança no processo de aprender. Para Fonseca3, dificuldade de aprendizagem é:
"Um termo geral que se refere a um grupo heterogêneo de desordens manifestas por dificuldades significativas na aquisição e utilização da compreensão auditiva, da fala, da leitura, da escrita e do raciocínio matemático. Tais desordens, consideradas intrínsecas ao indivíduo, presumindo-se que sejam devidas a uma disfunção do sistema nervoso central, podem ocorrer durante toda a vida. Problemas de auto-regulação do comportamento, na percepção social e interação social podem existir com as DA's. Apesar das DA's ocorrerem com outras deficiências (por exemplo, deficiência sensorial, deficiência mental, distúrbios socioemocionais) ou com influências extrínsecas (por exemplo, diferenças culturais, insuficiente ou inadequada ou inapropriada instrução, etc.), elas não são o resultado dessas condições."
Por meio desse conceito é possível perceber a complexidade do termo e o vasto campo de atuação das DA's. Essas crescem cada vez mais e absorvem uma diversidade de problemas educacionais e acontecimentos externos.
Sendo as DA's problemas enfrentados pelas crianças no processo de aprender, que podem estar relacionadas à própria dinâmica do comportamento, Sisto1 argumenta que o termo dificuldades de aprendizagem engloba um grupo heterogêneo de transtornos, manifestando-se por meio de atrasos ou certos tipos de dificuldades.
O mesmo autor fala da importância de olhar os aspectos orgânicos, cognitivos, emocionais, sociais, afetivos e pedagógicos, que levam o aluno a não aprender. Segundo ele, os fatores externos e internos são os responsáveis pelas DA's. Ainda para o autor as dificuldades de aprendizagem são vistas pelos pais e professores, no primeiro caso porque são os que convivem constantemente com as crianças, e que tanto um quanto o outro são pessoas que podem dar informações que ajudarão no diagnóstico e no tratamento da mesma.
Segundo Fonseca3, as DA's podem ser primárias ou secundárias: as primárias são as que não têm causa atribuída a elementos psiconeurológicos bem esclarecidos - disfunções cerebrais e, dentro dessas disfunções, teríamos Transtorno da Leitura, Transtorno da Matemática, Transtorno da Expressão Escrita e Transtornos da Linguagem Falada (englobam o Transtorno da Linguagem Expressiva e o Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva) e, as secundárias, que são originadas de fatores biológicos específicos e alterações comportamentais e emocionais - dentre as alterações biológicas (neurológicas) teríamos as lesões cerebrais, Paralisia Cerebral, Epilepsia e Deficiência Mental. Acrescenta ainda os sistemas sensoriais, através da Deficiência Auditiva, hipoacusia, deficiência visual e ambliopia. Ainda sobre as causas biológicas, as situações de DA são conseqüentes a outros problemas perceptivos que afetam a discriminação, síntese, memória e relação espacial e visualização.
As principais causas das DA's são: causas físicas, sensoriais, neurológicas, intelectuais ou cognitivas, socioeconômicas e emocionais (principal). As DA's levam as crianças a ficarem mais frágeis, tendo um baixo nível de estímulo e confiança, que pode levá-las a falta de motivação, isolamento, crises de angústia, estresse e, até mesmo, à depressão.
Muitas vezes, as DA's são reações incompreendidas de crianças biologicamente (neurologicamente) normais, mas que estão sendo obrigadas a adaptar-se às condições antagônicas das salas de aula. Ainda as DA's têm como ponto desencadeador dois tipos de problemas: o da escola (reativo) e o da criança (sintoma)2,4.

A ABORDAGEM psicopedDAGÓGICA
A psicopeddagogia é a abordagem que investiga e compreende o processo de aprendizagem e a relação que o sujeito aprendente estabelece com a mesma, considerando a interação dos aspectos sociais, culturais e familiares. O psicopeddagogo articula contribuições de áreas como a Psicologia, Pedagogia e Medicina, entre outras, com o objetivo de por à disposição do indivíduo a construção do seu conhecimento e a retomada do seu processo de aprendizagem. E, ainda, busca possibilitar o florescimento de novas necessidades, de modo a provocar o desejo de aprender e não somente uma melhora no rendimento escolar.
Os primeiros Centros psicopeddagógicos originaram-se na Europa, a partir da segunda metade do século XX, e atendiam pessoas que apresentavam DA's, isso pela coerência de conhecimentos pedagógicos e psicanalíticos5.
Nessa época, nos EUA, esse movimento entendia as DA's como sendo de fundo biológico, o que possibilitou o surgimento de muitas definições para distinguir aqueles que aprendiam dos que não aprendiam. E, assim, na Europa teve origem a psicopeddagogia que influenciou a Argentina, que passou a usar a reeducação para cuidar das pessoas portadoras de DA's, sendo que nos EUA o movimento estimulou a Psicologia Escolar.
De acordo com Bossa6, o objeto de estudo da psicopeddagogia é o próprio processo de aprendizagem e seu desenvolvimento normal e patológico em contexto. Estejam estes relacionados com o mundo interno ou externo, sem deixar de lado os aspectos cognitivos, afetivos e sociais que estão envolvidos no processo de aprendizagem.
A autora afirma que o objeto de estudo deve ser entendido a partir de dois enfoques: o enfoque de caráter preventivo, que esclarece sobre as características das diferentes etapas do desenvolvimento e o enfoque de caráter terapêutico, que identifica, analisa e elabora o diagnóstico e tratamento das DA's.
Scoz7 concebe o psicopeddagogo como atuante ora na área clínica, ora na institucional, mas explicita que ambas estão atreladas ao processo de aprendizagem. Nesse sentido, este profissional está ligado historicamente à educação.
Visca8 foi um dos primeiros psicopeddagogos que se preocupou com a epistemologia da psicopeddagogia e propôs estudos baseados no que se chamou de epistemologia convergente, resultado da assimilação recíproca de conhecimentos fundamentados no construtivismo, estruturalismo construtivista e no interacionismo. Esses estudos deram subsídios à psicopeddagogia brasileira.
Hoje, a psicopeddagogia abre caminhos para a articulação de saberes, contribuindo para a educação do Terceiro Milênio, promovendo a uniformidade e a junção dos diferentes conhecimentos sobre o ensinar e o aprender.
Então, a psicopeddagogia surgiu para preencher um espaço vazio deixado pela Psicologia e pela Pedagogia no que tange as suas dificuldades em explicitar questões ligadas à aprendizagem.
É evidente que a Pedagogia, não dando conta da demanda, necessite de um saber articulado à Psicologia, para superação do saber marginalizado - marginalizado porque a sociedade despreza todo saber que não atende a uma determinada norma.

A VISÃO SOCIAL SOBRE O FRACASSO ESCOLAR
Para Weiss9, o não-aprender na escola é uma das causas do fracasso escolar. A autora ressalta que essa questão é também bem mais ampla. Ela considera como fracasso escolar uma resposta insuficiente do aluno a uma exigência ou demanda da escola, e ela estuda a questão por diferentes perspectivas.
A primeira perspectiva é a sociedade, onde levamos em consideração, como agentes influenciadores na educação, a cultura, as condições e relações político-sociais e econômicas vigentes, o tipo de estrutura social, as ideologias dominantes, etc. A sociedade priva muitos aprendentes de aprender, tirando-lhes oportunidades de crescimento cultural, de desenvolvimento da linguagem e da construção cognitiva.
Weiss9 afirma que se priva o aprendente do desenvolvimento da linguagem, priva-o ao mesmo tempo do acesso ao desenvolvimento da leitura e da escrita, e que as condições socioeconômicas e culturais influenciarão nos aspectos físicos de alunos pobres, pois eles estarão expostos a vários tipos de doenças que poderão deixá-los com deficiência na aprendizagem.
A segunda perspectiva é a escola, que contribui e muito para o fracasso escolar de seus alunos. A falta de profissionais qualificados, a carência de material didático, carência na estrutura física e pedagógica, a má qualidade de ensino, tudo isso faz com que a escola seja um agente contribuinte dos problemas de aprendizagem e do fracasso escolar. Mas esse é um problema que precisa da contribuição social e também educacional.
Temos que reconhecer que falta nas escolas o estímulo para ensinar e aprender, e o reconhecimento de que somos todos aprendentes. Que, a cada minuto, todos os indivíduos contribuem para a construção da história geral, da história do seu país, da sua sociedade, da sua escola, da sua família, e principalmente para a história do próprio sujeito. Reconhecemos que todos nós somos capazes de produzir conhecimento, e que a falta de oportunidade para construir feri o ontológico de sermos sujeitos da nossa história.
O saber docente criado pela classe dominante também é um agente que impede o saber aprender, pois muitas vezes quem decide se os saberes do professor valem ou não são grupos distantes do dia-a-dia de sala de aula, ou seja, são "profissionais de gabinete", que mudam constantemente de opinião, provocando, assim, a má condução do processo ensino-aprendizagem. Essas interferências no processo ensino-aprendizagem prejudicam não só o professor, que tem que se adaptar constantemente às mudanças, mas também o aluno, que mesmo sem saber tem que aprender a aprender e aprender a se adaptar aos retoques e acréscimos feitos por esses profissionais. Esses retoques e acréscimos provocam no aluno dificuldades de aprendizagem e, conseqüentemente, o fracasso escolar.
O fracasso escolar é também oriundo da má condução do processo de ensino, pois o processo educativo mal conduzido causa indisciplina. Isto porque, por uma particular situação vincular ou social vivenciada pelo indivíduo, desencadeiam-se processos que levam a indisciplina, principalmente em sala de aula, e a situação vivenciada pode também ter sido provocada pelas carências da escola e pelo professor. A indisciplina é prejudicial ao aluno a ponto de provocar o seu fracasso na escola, pois a disciplina é um agente necessário para a construção do saber.
A terceira perspectiva está ligada ao aluno enquanto aprendente, isto é, às suas condições internas de aprendizagem. A autora nos leva a olhar para os aspectos orgânicos, cognitivos, emocionais, sociais e pedagógicos que levam o aluno a não aprender. Segundo ela, os fatores externos e internos são os responsáveis pelo fracasso escolar.

A VISÃO PSICANALÍTICA SOBRE O FRACASSO ESCOLAR
Na visão psicanalítica de Alícia Fernández4, o indivíduo em processo de aprendizagem que apresenta dificuldades no aprender pode estar desenvolvendo um mecanismo único para suportar as alterações de sua história emocional. Assim, pode-se entender o fracasso como sendo um sintoma escolar (segundo a autora), ou seja, um tipo de obstáculo no aprender que desenvolve uma interseção de aspectos sociais, culturais, familiares, orgânicos, pedagógicos, como também fatores afetivos e intrapsíquicos.
Para Fernández4, no processo de aprendizagem, o sujeito aprendente está em contato com os recursos cognitivos, mas não somente estes, e não somente mentais. Estão em contato também com a sua história afetiva desejante, sua corporeidade, sua estrutura orgânica, suas relações com os colegas e professores.
Para ela, o problema de aprendizagem não se origina na estrutura individual. O sintoma se funde em uma rede particular de vínculos familiares, que se entrecruzam com uma também particular estrutura individual. Esta condição interna de aprendizagem está ligada à história pessoal e familiar do sujeito aprendente. O não aprender por parte do aluno tem a ver com aspectos afetivo-relacionais vivenciados e que afetam a construção do conhecimento.
Para Fernández4, muitas vezes, o fracasso escolar pode intervir como fator desencadeante de um problema de aprendizagem que, de outro modo, não teria aparecido.
Sara Paín2 diferencia problema reativo de aprendizagem de problema de aprendizagem sintoma. As causas do problema reativo de aprendizagem estão na estrutura física da escola, na falta de material didático, na má motivação dos professores em função dos salários e do cansaço físico, na exaustão das crianças que exercem tarefas em casa ou trabalham para ajudar na renda familiar, enfim, numa situação externa aversiva pouco propícia ao estabelecimento de um espaço pedagógico que estimule a vontade de aprender. Trata-se de uma rede de fatores sociopolíticos. Então, problema reativo de aprendizagem é o que decorre de uma reação desmotivadora em relação ao aprender.
Fernández4 salienta que as causas do fracasso escolar não podem ser delegadas exclusivamente a fatores externos ao aprendiz. Trata-se de uma situação na qual o aluno está diante de um espaço físico com certa estrutura e não apresenta problemas orgânicos aflitivos, mas, em função dos obstáculos de caráter afetivo e relacional, a sua dimensão cognitiva (inteligência) é prejudicada, atrapalhada em seu curso, o que faz com que este sujeito apresente DA's ou até mesmo regrida em relação às competências já alcançadas, caracterizando assim o problema "sintoma" de aprendizagem. Vejamos que o problema de aprendizagem sintoma é gerado através da história pessoal do sujeito, geralmente criado pela rede vincular familiar, enquanto que o "reativo" é criado dentro da própria escola.
Fernández4 salienta que:
"(...) o olhar, a escuta e a intervenção psicopeddagógica devem estar direcionados à modalidade de aprendizagem em relação à modalidade de ensino, que surge das posições subjetivas entre o aprendente e o ensinante frente ao conhecimento, no decorrer da construção da história de vida do sujeito no ato de aprender, tendo como finalidade a autoria do pensamento, que é a descoberta da originalidade, da diferença, da marca, e a partir daí, abrir espaços para a criatividade."
Ainda, para a autora4, "o sintoma problema de aprendizagem toma a inteligência como terreno onde o aprender e o pensar estão comprometidos, a inteligência é uma prisioneira muito particular". Assim, entendemos que se não há autoria de pensamento, a aprendizagem fica lenta ou inexistente; aprisiona-se inteligência.
Winnicott10 diz que "há crianças cujo intelecto é impedido pela ansiedade e trabalha em regime de sobrecarga, novamente devido a algumas perturbações emocionais". Fernández4 afirma que "os aspectos de amor e sustentação, ainda que só sejam visíveis quando se colocam como obstáculo, são as condições necessárias para que qualquer aprendizagem seja possível".
Assim, os fatores internos, ou seja, fatores afetivos são os principais responsáveis pelo fracasso escolar, pois estes bloqueiam o aprender.

CONCLUSÃO
Então, fazendo uma análise comparativa entre as autoras, a psicopeddagogia de orientação psicanalítica, segundo Fernández4, é apresentada como alternativa para o entendimento da dimensão afetiva e desejante do sujeito aprendente, e Weiss9 adota a psicopeddagogia de orientação que é mais pedagógica, e que se apresenta como alternativa para entendimento dos fatores externos e internos, que influenciam tanto o sujeito aprendente, quanto o sujeito ensinante. Mas ambas visões apresentam soluções/tratamento para os problemas de aprendizagem e também para o fracasso escolar.
Devemos lembrar que as autoras citam em suas obras o que elas acham que ocasionam o fracasso escolar de acordo com pesquisas psicopeddagógicas, que elas fizeram tanto em seus consultórios, quanto em escolas. Mas isso, na visão psicopeddagógica, é mais psico do que pedagógico.
Talvez se a parte pedagógica das escolas sofresse uma reforma ou fosse ao menos revisada, grande parte dos problemas causadores do fracasso escolar seria resolvida.
Houve, neste estudo, o empenho em delinear uma reflexão analítica de educação que, ao propiciar emancipação subjetiva, promova, concomitantemente, saúde psíquica e física, estando ciente da necessidade de que ela precisa resgatar no aluno o desejo de aprender e de transformar a si e ao mundo.
A educação é importante também para a continuidade na transmissão do saber. A educação em si não é perfeita, como relata Kupfer11 em sua bibliografia, expressando a opinião de Freud - educar é impossível.

REFERÊNCIAS
1. Sisto FF. Dificuldades de aprendizagem. In: Sisto FF, Boruchovitch E, et al. orgs. Dificuldade de aprendizagem no contexto psicopeddagógico. Petrópolis:Vozes;2001.
2. Paín S. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas;1985.
3. Fonseca V. Introdução às dificuldades de aprendizagem. 2ª ed. Porto Alegre:Artes Médicas;1995.
4. Fernández A. A inteligência aprisionada: abordagem psicopeddagógica clínica da criança e sua família. Porto Alegre:Artes Médicas; 2001.
5. Mery J. Pedagogia curativa escolar e psicanálise. Porto Alegre:Artes Médicas;1989.
6. Bossa N. A psicopeddagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas;2000.
7. Scoz B. psicopeddagogia e realidade escolar, o problema escolar e de aprendizagem. Petrópolis:Vozes;1994.
8. Visca J. Clínica psicopeddagógica: a epistemologia convergente. Porto Alegre: Artes Médicas; 1987.
9. Weiss ML. psicopeddagogia clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. 8ª ed. Porto Alegre: DP&A; 1994.
10. Winnicott DW. Natureza humana. Rio de Janeiro:Imago;1971.
11. Kupfer MC. Freud e a educação: o mestre do impossível. São Paulo:Scipione;2001.